IA que cria IA: Claude já lidera 26% dos novos modelos de IA

IA que cria IA

IA que cria IA: é assim que a Anthropic resume, na prática, o relatório divulgado nesta sexta-feira (18). A empresa revelou que o Claude já lidera 26% do trabalho de pesquisa e desenvolvimento por trás dos próprios modelos de inteligência artificial (IA), um salto em relação a apenas 1% em março.

Como a Anthropic chegou a esse número

A empresa criou um sistema de classificação baseado na metodologia da Epoch AI, organização independente que estuda o avanço de modelos de inteligência artificial. Os resultados passaram por revisão humana antes da divulgação, para evitar distorções nos dados.

A contagem cobre praticamente todo o ciclo de criação de um modelo novo: definição de experimentos, escrita de código e revisão de resultados antes do lançamento.

Segundo a Anthropic, mais de 90% das tarefas de pesquisa realizadas em agosto envolveram colaboração direta entre humanos e o Claude. Nenhuma etapa crítica ficou totalmente nas mãos da máquina, mas a fatia de trabalho autônomo cresceu rápido nos últimos meses.

Ainda em agosto, cerca de 30 mil agentes de IA (versões do Claude configuradas para executar tarefas específicas sem supervisão constante) atuaram em pesquisa e engenharia dentro da empresa. Juntos, tomaram mais de 1 bilhão de decisões técnicas. Apenas 1 em cada 47 mil precisou de correção humana.

De 1% para 26% em cinco meses

O salto chama atenção pela velocidade. Em março, o Claude participava de apenas 1% do processo de criação de novos modelos de IA. Cinco meses depois, esse número chegou a 26%, de acordo com o relatório divulgado pelo Anthropic Institute, braço de pesquisa da empresa dedicado a medir o próprio impacto da tecnologia.

O ritmo surpreende analistas do setor: a adoção interna de IA avança mais rápido do que a adoção por usuários finais.

A companhia também destinou parte da capacidade de computação de pesquisa a testes de segurança. Na primeira semana de julho, 6% da capacidade total foi usada assim, percentual que sobe para 12% quando se conta apenas o trabalho conduzido pela própria IA.

O risco por trás da IA que cria IA

Por trás dos números, existe uma preocupação concreta. A Anthropic trata o autodesenvolvimento recursivo (recursive self-improvement, quando um modelo cria sozinho seu sucessor, sem ajuda humana) como um dos pontos mais incertos do setor.

“Modelos que aceleram o próprio desenvolvimento podem tornar mais desafiador para os humanos entenderem ou controlarem esses sistemas”, afirma a empresa no relatório.

O aviso chega poucos dias depois de o CEO Dario Amodei defender publicamente que o ritmo de avanço da IA precisa diminuir. Nas últimas semanas, pesquisadores relataram que modelos da própria Anthropic e da OpenAI conseguiram, em ambientes de teste controlados, acessar recursos que deveriam estar bloqueados. Os incidentes foram contidos, mas reforçaram o temor de sistemas autônomos escaparem do controle esperado.

A empresa defende que qualquer outra desenvolvedora de ponta poderia publicar métricas parecidas, permitindo que governos e o público acompanhem o avanço da tecnologia antes que os riscos fiquem grandes demais para conter.

Outras empresas de IA devem seguir a mesma linha?

Até agora, nenhuma concorrente direta divulgou números tão detalhados quanto os da Anthropic. OpenAI e Google DeepMind publicam relatórios de segurança periódicos, mas nenhum detalha, com a mesma clareza, o quanto a própria IA participa da criação dos modelos seguintes. Analistas apostam que essa pressão deve se espalhar pelo setor nos próximos trimestres.

Por que isso importa para quem usa IA no dia a dia

O relatório não muda a experiência de quem usa o Claude, o ChatGPT ou qualquer outro assistente hoje. Ainda assim, sinaliza uma tendência: empresas de tecnologia dependem cada vez mais da própria IA para criar a próxima geração de IA, o que tende a acelerar lançamentos e, ao mesmo tempo, dificultar o controle humano sobre erros e falhas de segurança.

Para desenvolvedores brasileiros que usam Claude, ChatGPT e Gemini no dia a dia, o relatório sugere que a próxima geração desses assistentes pode chegar mais rápido do que o normal, já que parte do ciclo de criação passa a ser feita por outra IA, sem as pausas de um cronograma humano.

Para o público em geral, o dado reforça um debate que já ganha espaço em pesquisas e reportagens: até onde a automação de tarefas de programação muda o mercado de trabalho em tecnologia. A expectativa é que outras empresas do setor divulguem números parecidos nos próximos meses.

O fenômeno da IA que cria IA deve continuar em alta nos próximos relatórios trimestrais da Anthropic e de concorrentes como OpenAI e Google DeepMind.

Perguntas frequentes

O que significa “autodesenvolvimento recursivo” de uma IA?

É o cenário em que um modelo de inteligência artificial cria, sozinho e sem ajuda humana, a próxima versão de si mesmo. A Anthropic considera esse ponto um dos mais incertos do desenvolvimento atual de IA.

O Claude já cria modelos de IA sem supervisão humana?

Não. Mais de 90% das tarefas de pesquisa em agosto envolveram colaboração entre humanos e o Claude. A participação autônoma do modelo chegou a 26%, mas ainda depende de revisão humana constante.

Por que a Anthropic decidiu divulgar esses números agora?

A empresa quer dar mais transparência ao ritmo de avanço da IA, permitindo que governos e o público acompanhem o desenvolvimento antes que a tecnologia avance sem controle.

Isso significa que a IA vai substituir programadores?

O relatório mostra que a IA já assume parte relevante do trabalho de pesquisa, mas ainda opera sob supervisão em quase todas as tarefas. A substituição total de profissionais humanos não está confirmada pelos dados da própria empresa.

O que é a Epoch AI, citada no relatório?

É uma organização independente que estuda e mede o avanço de modelos de inteligência artificial. A Anthropic usou a metodologia de classificação da Epoch AI para calcular a participação do Claude no próprio desenvolvimento.

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Fernando Lisboa

Analista de sistemas e redator independente, apaixonado por tecnologia e criador do TechOnPlay

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